Vale a pena conhecer… a história do busto da República (Ilga Pulga)

Há cem anos, Simões d’Almeida esculpiu aquele que seria, para sempre, o rosto da República Portuguesa. Era o busto de Ilda Pulga, uma mulher de Arraiolos que morreu com 101 anos, em 1993.

A história do busto de Simões d’Almeida começa em 1908, quando o elenco de republicanos do presidente Braamcamp Freire e o vereador Ventura Terra lhe fazem uma encomenda para um busto”. Simões d’Almeida foi bolseiro da instituição e esteve a estudar em Paris e Roma. Em 1911, abriu-se um concurso público nacional para a criação de um busto da República.

Concorrem nove artistas, ganha Francisco dos Santos, outro dos grandes escultores da época, igualmente bolseiro da Academia e que também estudou em Paris e Roma. Simões d’Almeida ficou em segundo, mas o foi o busto de Simões d’Almeida que se sobrepôs à ética republicana do concurso público, devido à sua exposição inicial, nos primeiros actos públicos oficiais da República. A 6 de Outubro, o novo regime faz um funeral conjunto a duas das figuras da luta contra a monarquia: Miguel Bombarda (1851- 3 Outubro de 1910) e Carlos Cândido dos Reis (o Almirante Reis, 1852 – 4 Outubro de 1910). Os novos símbolos ganham o seu primeiro grande espaço de divulgação em massa. E o busto de Simões d’Almeida é o que é exibido à multidão em apoteose republicana. A juntar a isto, em “A Revolução Portugueza”, o manifesto de Machado dos Santos, um dos rostos principais da luta republicana, também a peça de Simões d’Almeida teve um grande destaque simbólico.

Por detrás desta troca de bustos, podem estar também várias razões. Sobretudo de gosto, ou sensibilidade. Na opinião de alguns historiadores, o trabalho de Francisco dos Santos tem um toque mais de Paris, com uma mulher mais elegante. No de Simões d’Almeida, é mais portuguesa, com os seios mais fartos.

Hoje, a peça de Simões de Almeida é a que figura em todas as reproduções oficiais ou oficiosas.

Na sede da Academia Nacional Belas Artes está a peça original de Simões d’Almeida (a de 1908), em barro. Foi restaurada em 2009 pelo artista João Duarte.

Aqui fica também a referência a algumas das obras mais emblemáticas destes dois excelentes artistas.

Francisco dos Santos (1878- 1930)

Francisco dos Santos frequentou as aulas de Escultura de Simões de Almeida (tio), na Escola de Belas-Artes de Lisboa, partindo depois para Paris, onde frequentou o atelier de Charles Verlet, e, mais tarde, para Roma. Aí, em 1906, executou a estátua Crepúsculo (hoje no Museu do Chiado).
Regressando a Portugal em 1909, participou, no ano seguinte, no concurso da Câmara Municipal de Lisboa para eleição do busto oficial da República portuguesa, do qual saiu vencedor.
Em 1913 esculpiu Salomé, considerada a sua obra-prima (também no Museu do Chiado).
Em 1915 e 1917 realiza Um Beijo e Nina (no mesmo Museu) e, em 1920, concebe Prometeu (no Jardim Constantino, frente à Assembleia Distrital de Lisboa).
Da sua autoria são também a escultura mortuária Poeta para o túmulo de Gomes Leal (Cemitério do Alto de São João, Lisboa) e o Monumento ao Marquês de Pombal (na Praça do mesmo nome, em Lisboa), vencedor no concurso aberto para selecção do melhor projecto.

 Simões de Almeida (sobrinho) (1880 – 1950) 

José Simões de Almeida, conhecido por Simões de Almeida (sobrinho) por distinção do tio seu homónimo, formou-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa em 1903, onde veio a leccionar.

Esculpiu bustos e monumentos, executando os baixos-relevos do Monumento ao Marquês de Pombal (na Praça do mesmo nome em Lisboa), o frontão do Palácio de São Bento, os bustos do Duque de Ávila e Bolama, de Fontes Pereira de Melo e da República, bem como as alegorias à Constituição e à Justiça (no interior do mesmo Palácio), e as estátuas Relembrando e Escrava (ambas no Museu do Chiado).

Fonte: http://www.parlamento.pt

Por    Nuno Cabanas

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